Música x Direitos Autorais

O que é LEGAL está aqui

Entrevista: Paulo James, dos Acústicos & Valvulados, fala sobre composição, música e Direito Autoral na Era da Internet

Paulo James - nosso entrevistado

Paulo James - nosso entrevistado (Foto: Pauline Costa)

Cristalinos acordes de violões amplificados por poderosas caixas valvuladas. O espírito roqueiro do Acústicos & Valvulados começa no próprio nome da banda. Desde seu início, impôs um estilo bem particular a sua música.

Em entrevista via e-mail para o Música x Direitos Autoriais, o principal compositor da banda, Paulo James, 37 anos, músico, compositor, jornalista formado pela UFRGS, e agora pai, falou um pouco sobre o trabalho realizado pelos Acústicos & Valvulados e sua posição diante do atual mercado fonográfico, ameaçado pela livre distribuição de músicas através da internet.

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Fotos: Pauline Costa

Música x Direitos Autorais – Como você vê o compartilhamento de músicas for free na internet: divulgação de trabalho, desrespeito à obra ou tendência de mercado?

Paulo James – Tem de tudo um pouco [risos]. Mas, mais do que isso, é a tecnologia disponível e a vontade/comportamento do público que criam essa situação. Sempre houve troca de música – desde os tempos do vinil, da fita K7, etc. O que rola agora é uma facilidade enorme de comunicação, de transferência de dados, o que acelerou e aumentou pra caralho esse processo de troca. A liberdade do público tem que ser preservada, porque é positiva. Mas acho que onde rola lucro com a música, esse lucro deve ser repartido com quem detem os direitos autorais e artísticos. Enfim, não se deve cobrar do público, mas sim dividir o faturamento publicitário.

MxDA – Como você classificaria o trabalho do Ecade (Escritório Central de Arrecadação e Distribuição)? Sendo o único órgão responsável a atribuir os devidos valores aos direitos autorais ele cumpre a contento o seu papel?

PJ – Olha, comigo sempre funcionou, pelo menos dentro desse modelo que tá aí. Claro que falta muita coisa, mas o Ecad não é o único culpado. Falta conscientização dos contratantes de música ao vivo, e da mídia em geral, pra pagar os direitos. Por exemplo: de 10 shows, dois são efetivamente pagos. E tem muito veículo de mídia que lucra legal usando a música como carro-chefe da programação mas não paga os direitos dos autores dessa música.

Falta informação pros músicos e compositores, que não sabem como buscar seus direitos autorais e conexos, etc.

Quanto à questão da “atribuição de valores”, sempre é uma porcentagem da arrecadação que um contratante de show, promotor de festa, veículo de mídia, comércio, serviço tem ao utilizar a música pra faturar. Pra mim é isso mesmo que deve acontecer, não vejo outra maneira.

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MxDA – O Youtube, desde o ano passado, travou uma guerra contra os usuários a fim de garantir as medidas impostas pelas gravadoras na proteção dos direitos autorais. Entre as principais estão a medida que ‘cala’ vídeos feitos por internautas que utiliza músicas protegidas e a retirada de videos em perfis não oficiais ao mesmo tempo em que muitos não permitem a incorporação de videos em sites, blogs e páginas pessoais. O que você acha disso? É possível que o compositor receba pelo número de execução no Youtube ou outros agregadores de videos?

PJ – Bom, eu gostaria de receber [risos]. Acho que o YouTube (e outros) podem pagar os autores/gravadoras/artistas com parte da grana que ganha da publicidade. E é bastante grana que eles faturam com publicidade! Enfim, se a música está sendo usada pro cara lucrar, não vejo motivo pra não dividir esses pilas. Já retirar vídeos do ar é bobagem, é um faz-de-conta. O YouTube só “cumpre a lei” pra não comprar briga com a justiça, sabendo que logo em seguida outra pessoa vai lá e posta outro vídeo, num ciclo sem fim. É como fechar o Napster, que saiu de cena só pra dar lugar a outros mecanismos parecidos. A real é que não tem cabimento querer travar a expressão das pessoas, que usam a tecnologia e sempre serão criativas ao usar essa tecnologia, inventando novas formas de uso, novos programas, novas comunidades, etc.

Se o YouTube vai cobrar pelo serviço, sei lá. Muita gente pode pagar, mas outra penca de pessoas vai migrar pro próximo serviço gratuito, que certamente ganhará público. E assim por diante. Mais fácil seria eles abrirem a mão mesmo, dividir com os artistas, ao invés de embolsar todo o lucro publicitário.

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Fotos: Mônica Patrícia

MxDA – A quem pertence a música: à gravadora ou ao compositor? Se for ao compositor, por que são as gravadoras que impõem as regras de distribuição de conteúdo?

PJ – Pois é, isso é um lance simples, mas pouca gente saca. É assim: a autoria, claro, é do compositor. Nisso ninguém mexe. Mas quando tu faz contrato com uma gravadora, ocorre uma cessão de direitos. O que tu gravar durante este contrato, que são os fonogramas ou videofonogramas (aquela gravação específica daquela obra), são da gravadora. Tanto é que, da venda do CD/DVD, a gravadora ganha 95% e a banda 5%. Dos 95% da gravadora, uma parte é para direitos autorais – tipo 10% da planilha do CD, que vai ser dividida entre todos os autores que cederam sons praquele CD. Já se o cara é independente, e paga sua própria gravação, sua divulgação, etc., o fonograma é dele, e aí sim ele pode fazer o que bem entender, sem dar explicação a mais ninguém.

MxDA – Internet x Direitos Autorais: como você vê isso em um futuro próximo e qual seria uma solução para, senão terminar, amenizar o impasse?

PJ – Uma boa saída é direcionar parte da grana que os sites arrecadam com publicidade para pagamento dos autores, músicos, gravadoras, etc.  Simples, fácil e justo. E a tentativa de cobrar do público é besteira, não tem razão mesmo.

MxDA – Que medidas estão sendo tomadas para que o trabalho siga adiante sem ser prejudicado, tanto o trabalho, quanto a divulgação que hoje em dia depende também da internet?

PJ – Olha, o lance da divulgação é bem legal, te faz chegar mais longe, mais rápido. A gente sempre utilizou a Internet, dá pra dizer que desde os “primórdios” [risos]. Site, blog, emails, fotolog, sempre tem uns MP3 disponíveis, uns vídeos no YouTube, etc. Enfim, estamos em sintonia com o modelo que tá aí, mas torcemos pra que haja mais reconhecimento do trabalho dos músicos e autores, e que se evolua pra um sistema mais justo nesse sentido.

MxDA –  Quantas músicas você já compôs e para quem?

PJ – Mais de cem músicas, tranqüilamente, e a grande maioria pros Acústicos.

MxDA – Qual o maior sucesso de execução?

Essa é uma briga boa…Ou é Até A Hora de Parar ou Fim de Tarde Com Você.

MxDA – Além dos Direitos Autorais de onde vem a sua renda e, em percentuais, quanto disso provém apenas de Direitos Autorais?

PJ – Bah, rapá…Não faço tanto cálculo assim [risos]. Sou músico e compositor, ganho dos shows (mais), dos direitos autorais (médio) e da venda de CDs (pouco).

Sobre o Acústicos & Valvulados

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Foto: Mônica Patrícia

O Acústicos & Valvulados é uma banda de rock, mais especificadamente, rock gaúcho, formada em 1991. Nascida no rockabilly e ao longo dos anos desdobrou-se em rocks, folks, canções e baladas, em 1996, a gravadora Paradoxx apostou no rock do quarteto, e colocou na praça “God Bless Your Ass”. E mais adiante, a banda disparou com a incursão no mercado fonográfico que aconteceria em 1999, com o lançamento de um álbum homônimo.

Acústicos & Valvulados foi lançado pela Abril Music, em 2000. Com seu segundo disco na praça, com o mesmo nome da banda, o grupo viveu a sua primeira decepção com uma gravadora. Com o encerramento das atividades da empresa, a banda voltou a seu espírito independente.

Amadurecida esperou até 2001 para colocar nas prateleiras um novo disco, novamente chamado apenas de Acústicos & Valvulados. Em 2003 lançou o “Creme Dental Rock N’ Roll”, com a idéia de que esse deveria estar na boca de todos. E foi o que aconteceu: em 2005. “Esse Som Me Faz Tão Bem” foi lançado.

O trabalho mais atual da banda se chama “Acústico, ao vivo e a cores”, lançado no ano de 2007, em comemoração aos 15 anos de estrada. De terno e All Star, junto de seus fãs e amigos, a banda registrou essa comemoração no Leopoldina Juvenil, em Porto Alegre com participações especiais de importantes músicos gaúchos: Tchê Gomes, TNT, Márcio Petracco, Luciano Leães e Alexandre Papel Loureiro.

O CD e DVD “Acústico, ao vivo e a cores” é composto por 20 faixas, entre elas, seus maiores sucessos em um formato diferenciado, além do resgate de músicas menos conhecidas, quatro músicas inéditas (sendo três compostas por Alexandre Móica). Os Acústicos & Valvulados são Rafael Malenotti (voz), Alexandre Móica (violão e voz), Paulo James (bateria), Daniel Mossmann (violão) e Diego Lopes (baixo, piano e voz).

acusticos_mp5 Foto: Mônica Patrícia

Áudios: Ouça Acústicos & Valvulados:
Página da banda no MySpace | Site Oficial

abril 2, 2009 Posted by | Entrevista | , , , | 3 Comentários

A internet e as novas maneiras de ouvir música

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Foto: Cler Oliveira

Nas ruas, nas praças, ônibus, supermercados. As novas mídias trouxeram mobilidade a um dos tipos de lazer mais comuns entre os jovens: ouvir música. Se há muitos anos, para apreciar o trabaho de um cantor, a família se reunia em volta de um aparelho clássico, porém desengonçado, chamado Gramofone, hoje, o hábito de ouvir música pode ser, graças à tecnologia, um ato individual.

Cada um, por meio de pequenos players ou mesmo enquanto trabalha no seu computador, tem a sua disposição uma variedade infinita de músicas, sejam elas em MP3 ou via Streaming (na qual se ouve sem baixar).

Mas essa facilidade tem um preço que nem sempre os usuários estão dispostos a pagar que são os Direitos Autorais de obras fonográficas. Valores embutidos automaticamente em todos os materiais originais que saem via gravadora.

A internet mudou muitos dos hábitos de quem costumava comprar CD, como os da Fisioterapeuta Caroline Basegio, 25, que admite comprar CDs apenas de bandas que gosta e faz uso, cada vez mais, da internet para ouvir música.

Myspace

MySpaceUm dos meios mais conhecidos de ouvir músicas sem infringir nenhuma lei de direito autoral é o MySpace, a segunda rede social mais popular do mundo. O site é conhecido por ser um dos meios mais fáceis de divulgar trabalhos de novas bandas e cantores. Atualmente, reúne mais de 11 milhões de perfis de artistas entre profissionais, amadores e principiantes. No Brasil, catapultou bandas como Fresno e a cantora folk Mallu Magalhães do meio virtual ao estrelato físico.

Grandes nomes da música como Coldplay e até a hard rocker Guns n’ Roses optaram por lançar seus álbuns primeiro por lá e depois colocá-los nas prateleiras, afirmando que, desta forma, o produto físico se torna mais popular.E, de fato, pode ser.

“O verdadeiro fã compra o álbum, independente do valor. Nada melhor do que ter um produto com um bom acabamento nas mãos. Ouvir via Streaming é mais uma opção para que se conheça mais músicas e bandas”, (Lucas Vidal, 28, comerciante, fã de U2)

Blip.FM

blipUma rede social relativamente nova, que ainda não figura entre as mais conhecidas no mundo, vem chamando atenção por ser um dos meios mais interativos para ouvir música na internet. O Blip.FM pode ser definido como a união de diversas redes sociais que deram certo. Do Last FM pegou a facilidade de escolher e ouvir músicas via Streaming. Do Twitter, a comunicação entre os úsuários por meio de 140 caracteres e do Orkut, a possibilidade de reconhecer ser fã dos melhores Djs da rede por meio de props, que nada mais são do que pontos de recomendação às canções escolhidas pelos participantes.

Um passeio pelo Blip

A queda da indústria fonográfica

Há duas décadas, no início dos anos 90, a indústria fonográfica ainda desfrutava seu momento de glória. No entanto, com a propagação da internet, esse cenário passou a mudar lentamente e, através da troca de músicas via web, a indústria fonográfica começou a vivenciar uma crise que segue até hoje, intensificando no início dos anos 2000, a crise se fortaleceu com o fácil acesso à gravadores de CD’s, proporcionando o luxo da seleção das músicas que são gravadas.

Conforme os dados da Associação Brasileira de Produtores de Discos, a indústria realmente vem decaindo com o passar dos anos, é possível observar isso através dos dados disponíveis na tabela abaixo:

Evolução das vendas de Cd’s musicais no Brasil (2002/2006)

ANO Vendas Totais CD + DVD (R$) Unidades Totais (CD + DVD)
2002 726 milhões 75 milhões
2003 601 milhões 56 milhões
2004 706 milhões 66 milhões
2005 615.2 milhões 52,9 milhões
2006 454.2 milhões 37,7 milhões
2007 312.5 milhões 31.3 milhões
Variação(2006/2007) (- 31,2 %) (- 17,2 %)

Fonte: ABPD (valores reportados pelas maiores companhias fonográficas operantes no país à ABPD).

Nei Lisboa e a sua Webvitrola

webvitrola“Ainda há quem pretenda culpar o MP3 pela absoluta crise e derrocada da indústria fonográfica. Mas o formatinho compacto, ou sua atividade de troca, ao menos, já vai virando passado. É o streaming – transmissão pela rede, sem cópia integral dos arquivos – quem começa a tomar conta do nosso imaginário e da realidade, em um caminho previsível de se ter a música não mais como produto e sim como serviço.” (Nei Lisboa)

O artista gaúcho Nei Lisboa é um gênio, não apenas na arte de compor e interpretar suas músicas, mas também quando o assunto é visão de mercado. Tanto que criou a Webvitrola, um player de 2,7 MB que você copia para o seu desktop ou pen drive com certificação digital da Codomo. Basta estar conectado a uma banda larga para ouvir, com boa qualidade, a discografia completa do cantor. Com isso, Nei distribui sua obra de maneira legal, gratuita e, de quebra, ganha a simpatia dos fãs.

março 12, 2009 Posted by | Internet, Streaming | , , , , , , , , , | Deixe um comentário